sexta-feira, 7 de maio de 2010

Ser Roubado Não É Legal

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Eu cresci em uma cidade de interior, sabe. Daquelas em que cinto de segurança é praticamente artigo opcional em carros, dez quadras é uma distância imensa e bicicletas são o meio de transporte mais difundido. É praticamente Amsterdã, só que sem a maconha, os canais, as stripers e acima do nível do mar. É, na verdade, não tem nada a ver com Amsterdã, mas isso não vem ao caso.

O importante é que sou um cara de interior. Nunca estive nem próximo de violência. Bom, tirando a televisão e os filmes do Tarantino, claro. Não sei nem quantas vezes eu voltei pra casa à pé de madrugada sem ser estuprado, ou pior, roubado. Aliás, eu nunca fui roubado na minha vida inteira.

Hmm, melhor dizendo, eu nunca havia sido roubado. Isso mudou ontem de manhã, amigos.

Não entendo muito de lei. Aliás, tenho uma ideia muito firme de que uma pessoa só tem três motivos para conhecer bem a lei: ser criminoso, ser policial ou ser advogado. Ou seja, só gente mau caráter. Masenfim, o caso é que não sei qual a diferença entre roubo, assalto, latrocínio e um oboé.

Então, pra fins didáticos, tratarei a coisa como roubo mesmo. Apesar de que o que na verdade aconteceu foi o arrombamento do meu carro.

Desde o começo do ano, tô de carro. É uma grande vantagem sobre o ônibus: você pega menos doenças, não precisa escutar música de gente que não sabe da invenção do fone de ouvido e ainda mantém a sua dignidade. Mas há as grandes desvantagens, claro: você gasta mais em combustível, você gasta mais em manutenção, você gasta mais em estacionamento. Você gasta mais em impostos, gasta mais com as mulheres que começam a te rodear.

No meu caso, os gastos nem subiram tanto, porém. Aliás, não subiram em nada. É, eu só preciso ficar sem comer dois dias na semana e pronto, orçamento intacto no fim do mês.

Mas para estacionar o carro é um problema. Eu tenho aulas no Hospital Universitário, sabe. Um hospital com muitas vagas, sabe. Um hospital que só deixa funcionários estacionar lá dentro, sabe. E daí eu tenho que estacionar numa das ruas próximas do HU, como a grande maioria dos alunos faz.

E eu cometi o erro incrível de deixar um blusa no banco de trás do carro.

Deixei meu carro lá oito da manhã, fui pra minha aula e, quando voltei, descobri meu carro aberto, com a fechadura arrombada, uma parte da porta amassada, porta-luvas revirado e banco de trás abaixado (pra olhar no porta-malas).

Eu não fico puto de perder a blusa, sabe. Nem um pouco. Ela já tinha uns dois anos, tinha uma mancha amarela na manga direita, as costuras tavam soltando e a bagaça exalava um cheiro de napalm um pouco incômodo. Era minha, mas, se o trombadinha não tivesse colocado as mãos nela, era questão de tempo até minha mãe colocar e dar um fim naquilo.

O que me deixa puto é que o gasto que eu vou ter para consertar o estrago do cara, provavelmente cinco vezes maior do que o preço da blusa. O que me deixa puto é eu nem poder estacionar meu carro DE MANHÃ em algum lugar, sem o risco de me levarem tudo que tá lá dentro. O que me deixa puto é ter que pensar que “ainda em que ele só levou isso”. O que me deixa puto é as pessoas me dizendo que também dei mancada de deixar a blusa lá dentro.

Porra, que burro eu fui de pensar que eu podia deixar uma coisa MINHA no MEU carro em PLENA LUZ DO DIA! Que burro eu fui de deixar uma blusa velha e malcheirosa à vista de qualquer um que ENFIASSE A CARA NO VIDRO DO MEU CARRO pra ver se tinha algo lá.

NEM TAVA FRIO NAQUELE DIA, CARA!

Eu podia ficar aqui reclamando como um babaca sobre a situação de insegurança que o cidadão comum vive ou eu podia falar alguma besteira sobre as raízes sociais da violência. Mas nada disso resolve meu problema.  Agora eu tô muito mais preocupado com o terceiro dia da semana que vou ter que ficar sem comida, só para arrumar um amassado causado por uma merda de uma blusa.

puta falta de sacanagem isso viu

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