sábado, 17 de janeiro de 2009
Se Eu Fosse o Roteirista
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Sempre tive problemas com esses filmes de troca de corpos. Você sabe, esses filmes em que, para fazer uma gracinha qualquer sobre saber se colocar no lugar do outro, ocorre uma troca de corpos entre duas pessoas em conflito (uma mãe e uma filha, um marido e uma esposa, um cafetão asiático manco e um travesti negro muçulmano).
Como acontece, o que causa tudo? Tony Ramos e Glória Pires, juntos e falando uma frase babaca qualquer, desencadeiam uma perturbação no espaço-tempo que resulta na troca? Eles perturbam mais minha paciência, isso sim. O Universo, Deus ou o Roteirista agem no momento certo para a evolução pessoal de alguns? Vamos convir, a única vez em que o Universo ou Deus agiu no momento certo foi quando criou o sorvete de flocos: Heroes, Zorra Total e as companhias de telefonia são a prova cabal de que o Universo ou Deus raramente funciona.
É bem difícil aceitar esta coisa mágica, sobrenatural de transporte de consciência ocorrido bem no momento de um conflito de personalidades e realidades, mas não é esse meu maior problema com filmes de transferência de consciência. O que me irrita é aquele negócio do meu azul-bebê e do seu azul-bebê.
Veja bem, amigo leitor, você, até onde eu sei, nunca saiu do seu corpo. Vamos esquecer aquela coisa de viagem astral, que só serve pra vender livros de auto-ajuda e remédios pra dormir. Até hoje, você só viu o mundo com os seus olhos, sentiu com o seu corpo e essas coisas. Vamos desconsiderar aquela coisa de reecarnação, que só serve pra te dizerem que você foi alguém importante, mas nunca um vagabundo ou Hitler.
Agora me responda: o meu azul-bebê é igual ao seu azul-bebê? Você percebe aquela roupa horrorosa da Tia Florinda do mesmo modo que eu? Minha percepção é como a sua?
Talvez sim, talvez não, talvez foda-se. Em qualquer das opções, imagine a surpresa de uma pessoa ao acordar e descobrir exatamente como é a percepção da outra. E não estou falando da surpresa que geralmente acontece nesses filmes: uma mulher gritando após ver um pênis grudado onde antes não existia nenhum, uma filha desesperada ao ver-se com aquela papada horrível da mãe, o Tony Ramos gritando histericamente com voz fina.
Todas essas supresas são banais. Se fosse eu o roteirista de um filme desses, os personagens se surpreenderiam não só com suas estruturas anatômicas novas, mas com toda a nova visão da existência, todos os novos modos que seus sentidos se comportam. Logo após descobrirem a troca de corpos, meus personagens ficariam sentados durante duas horas sob a cama, olhando suas mãos, afagando os lençóis, respirando lentamente. E no final todo mundo seria atropelado por um ônibus bi-articulado, como todo final de bom filme deveria ser.
Seria um sucesso imediato entre os críticos e os intelectuais. E alguma revista provavelmente publicaria uma análise dizendo ser “uma obra densa, retro-alimentada por uma força dramática sarcástica e amarga, falando à toda humanidade enquanto seres individuais”, o que quer que isso signifique.

2 comentários. Viva!
17 de janeiro de 2009 às 21:47
Num país onde a audiência do Big Bróder é enorme, um filme que abordaria questões existencias que nem o seu proposto faria tanto sucesso quanto música erudita em baile funk. Seu filme é bom. Mas o público, em geral, necas.Aliás, vc tem tino pra cineasta. Mais um post seu com idéia pra um filme, e meu tio que vende DVD pirata na barraquinha da feira vai te patrocinar.
18 de janeiro de 2009 às 18:31
Muito legal, outro dia tava pensando nisso, pois se as cores são a forma como o seu cérebro interpreta um comprimento de onda, a interpretação deve ser diferente pra cada cérebro, da mesma forma como o som, que é apensa o resultado de uma despolarização.
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