sexta-feira, 30 de julho de 2010

Racismo, Hugo? Não é mais assim!

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Não sou particularmente bom em identificar e descrever características corporais, sabe. É impossível pra mim enumerar quais as qualidades de um nariz, por exemplo, ou descrever um tipo de olho ou fazer um retrato falado que não lembre alguém que teve a cara amassada por uma restroescavadeira. Expor em palavras como é uma pessoa consiste em uma das habilidades que não possuo, junto com fazer omelete ou chegar acordado ao final de textos da Lispector, Clarice.

Talvez por essa minha dificuldade de perceber características das pessoas eu demorei tanto para perceber que sou negro.

Você, amigo leitor, provavelmente nunca viu minha face. Tenho uma política rígida sobre colocar fotos e vídeos, por um motivo simples: cada vez que você põe sua cara na internet, suas chances de SER ESTUPRADO ficam sete bilhões de vezes maior.

É pura lógica, pensa bem. Você convive com um número restrito de pessoas. Pode ser que entre elas exista um depressivo, pode ser que entre elas exista um esquizofrênico, pode ser que entre elas exista um psicopata maníaco com ideações sexuais sobre sua pessoa. Acontece com todo mundo, mas a probabilidade é baixa. Aí entra a internet, ou, como gosto de chamá-la, a REDE MUNDIAL DE ESTUPRADORES.

O número de pessoas com que você convive na internet é muito maior que de convivência real. Basta ver seus amigos no orkut: você não tem verdadeiramente 600 amigos, só a rede mundial de estupradores poderia te proporcionar isso. Assim, como aumentam as pessoas com quem você se relaciona, aumentam também as chances de existir entre elas um lunático. Funciona mais ou menos assim ó:

Por isso, as poucas fotos e vídeos que coloco na internet são restritas a algumas pessoas. E sempre troco meu rosto por um marmota no Photoshop, só por garantia. O que nos leva de volta ao fato de você nunca ter me visto e não poder dizer se eu sou verdadeiramente preto ou não.

Vou logo dizendo: nunca me considerei negro. Só não posso dizer o mesmo pelo resto do mundo.

Outro dia, por exemplo, descobri que meus amigos de sala acreditam que eu usei as cotas de negros pra entrar na faculdade. Pode ser um insinuação maldosa sobre a minha inteligência ser menor que a deles, mas alguma base física eles usaram. As pessoas me consideram, mesmo que minimamente, negro.

Não que haja algo de errado com isso, claro. Aliás, é exatamente isso que eu queria dizer nesse post: nunca sofri ou presenciei racismo (tirando ser seguido em lojas, mas isso é pela minha cara de pobre mesmo). E é por isso que acho compreensível quando alguém me diz “Você acha que existe racismo, Hugo? Não é mais assim também!”.

Dá para entender. É gente que, como eu, nunca sentiu ou assistiu discriminação. Que acha que a sociedade brasileira atingiu a igualidade racial. Que acredita em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Jesus Cristo. Isso é compreensível, mas errado.

Não é mais assim como, amigo? Só porque não temos mais GRILHÕES tá tudo resolvido, é? Não tá. A gente avançou muito na questão racial, admito, mas ainda estamos ridiculamente ruins no assunto.

Eu posso nunca ter visto discriminação declarada, mas vejo que na minha sala, em um curso de medicina de uma universidade estadual, a quantidade de negros é ridícula ou quase nula. MESMO COM COTAS. Vejo quem anda no shopping. Vejo quem vai nas caríssimas sessões tresdê. Vejo Colírios Capricho. Não vemos mais racismo, mas ele é sentido em todo lugar.

Então, amigo, é bem assim, sim.

17 comentários. Viva!

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