domingo, 27 de junho de 2010

Faz Um Ano

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Na penúltima vez que vi o Lucas, tive que atravessar uma porta de vidro, lavar as mãos, vestir uma espécie de jaleco ou avental verde e entrar no quarto, só duas pessoas por vez, em silêncio. Mesmo porque não havia nada a dizer.

Ele estava coberto por um lençol azul, quase sentado na cama com a cabeceira elevada. Um ou outro fio e tubo saíam daqui e dali pra um aparelho que mostrava um número ou uma gota caindo. A cabeça dele estava tão inchada que era difícil reconhecê-lo.

Era a segunda vez que eu ia a Curitiba. A primeira, seis meses antes, foi quando passamos lá para pegar ele e seu irmão (que tinha ido para lá de Campo Grande, num avião) e depois passarmos uma semana na praia.

Na antepenúltima vez que eu vi o Lucas, nós viajávamos de carro de Epitácio à Londrina. No dia anterior, tinha sido o aniversário de 70 anos da nossa vó. O Lucas veio de Curitiba com um carro alugado – porque o carro dele estava no conserto após uma batida – e levaria a mim e meu irmão para Londrina, dormiria no nosso apartamento aquela noite e na manhã seguinte seguiria viagem. Naquela época, eu ainda não tinha carro.

Nós paramos em um posto no meio do caminho para ir ao banheiro. Passo na frente desse posto todo vez que viajo de Londrina para Epitácio, e vice-versa.

Chegamos em Londrina onze horas da noite. Passamos no drive tru do McDonalds e fomos para casa comer. Nós sempre adoramos comer no McDonalds e era uma das poucas coisas que tínhamos em comum. Ele tinha um gosto musical terrível, um gosto para filmes pior ainda, discordávamos em quase tudo, mas ainda assim era o meu primo mais próximo.

Naquela noite, conversamos até tarde, olhamos no Google Maps o caminho que o Lucas faria para ir a Curitiba – 500km, sozinho – e ele disse que nosso apartamento era três vezes maior que o dele, mas ele pelo menos tinha um sofá.

Agora nós temos um sofá: o dele.

Na manhã seguinte, o Lucas e o Caio acordaram cedo e ele levou meu irmão para UEL, porque era no caminho para a rodovia. Eu não tinha aula de manhã naquele dia. Não acordei para vê-los saindo.

Uma semana depois, no sábado, meu primo foi atropelado de madrugada a umas dez quadras do seu apartamento. Ele estava voltando para casa de um barzinho à pé, porque o carro dele ainda não voltara da oficina. O motorista do carro fugiu, sem prestar ajuda. Nunca foi encontrado.

Hoje faz um ano.

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