quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Brasileiro Adora Se Aproveitar

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Normalmente sou um cara controlado. Sei mentir razoavelmente bem (“Nossa, que bom que vocês vieram sem avisar, parentes distantes!”) e sei criar um sorriso sincero nas horas em que, na verdade, quero matar todos à minha volta, roubar seus pertences, mandar estes de volta aos familiares daquelas pessoas e depois roubar tudo outra vez.

Mas há certas afirmações que me fazem querer usar todos aqueles golpes de artes marciais que aprendi num curso por correspondência. Logicamente, são frases contrárias às minhas opiniões, afinal eu, como todo mundo, me acho o maior sábio existente e o centro do Universo relevante (considerando-se a circunferência da minha barriga, essa última pode até ser verdade). 

Uma dessas afirmações é a já clássica “brasileiro é tudo aproveitador”, e em 97,63% dos casos vem seguida dos lindos dízeres “você acha que na {insira um país europeu} o povo faria isso?” e um sorriso de superioridade moral. 

*pausa silenciosa minuciosamente calculada para expressar que acho um filme do Eddie Murphy mais valioso que qualquer um que diga tal coisa, fosse ele um amigo, minha mãe ou a Scarlett Johansson (tá, a Scarlett eu perdoaria)* 

Meus amigos, só eu acredito que querer se dar bem sem esforço não é qualidade exclusiva de brasileiro? Não é como se europeus, os americanos ou qualquer outro fossem o ápice da boa educação: até onde eu me lembre, as francesas não são muito conhecidas pela falta de pêlos axilares e eles também usam trancas por lá, nas regiões onde todo mundo sabe o que é certo, qual a roupa mais na moda e qual tipo de chá ideal pro outono. 

Pelo que fui informado, buscar o meio mais fácil e mais moralmente repreensível é algo tão inerente ao ser humano quanto ter um nariz ou se achar o centro do Universo relevante. 

As pessoas dizem que “brasileiro é vagabundo”, como se a salvação da nação fosse todo mundo ser certinho, eticamente responsável e contribuinte do Teleton. Tá, a salvação da nação seria essa, mas, cara, olhe em volta: dois mil anos atrás um cara foi pregado em um pedaço de madeira só porque sugeriu que as pessoas devessem gostar mais das outras. 

Filhadaputice, meus amigos, é tão comum quanto nascer com um cérebro (desculpaí, bebês anencéfalos e bebês de dois cérebros, mas vocês não são exatamente comuns). 

Brasileiro adora se aproveitar? Claro; eu, por exemplo, adoraria me aproveitar da Scarlett Johansson ou de alguma forma de ganhar dinheiro fácil e ilegalmente. Só não faço isto porque sei que eu iria preso e, apesar de não ser lá essas coisas, seria estuprado ou coisa do tipo (num mundo onde suborno fosse uma prática ilegal, claro). Não sou correto e minha ética não serve nem para peso de papel, só sei até onde devo me aproveitar. 

Brasileiro é tudo aproveitador, mas não quer dizer que o Brasil só vai funcionar quando todo mundo estiver fazendo 500 adominais pela manhã e não jogando papel no chão. Não sei dizer quando a coisa toda vai funcionar, mas se for preciso fazer 500 abdominais pela manhã ou tentar fazer só o que é eticamente correto, já vou dizendo: inclua-me fora dessa.

1 comentário

  • É válido o “aviso”, mas há coisas que só acontecem aqui – e, essas coisas, me fazem sentir vergonha de ser brasileiro.No Japão, político corrupto se suicida; se essa regra valesse aqui, a população de Brasília seria reduzida drasticamente. Em diversos países do mundo, o trânsito é civilizado, se você pede passagem, o cara da frente dá; aqui, além do cara não sair da frente, ainda te dá uma prensa e o manda tomar naquele lugar aonde não bate sol.É chato ficar batendo na tecla de que esse país é uma merda, e blablablá. O discurso está batido, já encheu o saco. Mas… Ok, shame on me, mas o Brasil está na merda. Não sei até quando, não sei se eternamente, mas, hoje, estamos anos luz aquém de países desenvolvidos – não só economicamente, mas em tudo.[]‘s!

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