quarta-feira, 30 de junho de 2010

Bancos, Desodorantes e Honestidade

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Tenho uma pequena lista de hábitos que tento erradicar. São coisas que sempre fiz na minha vida e que agora me incomodam um pouco, mas não consigo parar de fazer. Coisas como checar meu e-mail a quase quinze segundos, usar chinelos em qualquer evento social e deixar a televisão ligada mesmo que eu não esteja assistindo. Esse último costume vem desde criança.

Eu já disse aqui (e provei, aliás) que eu fui criado pela televisão. Inclusive, acho esse um método de criação muito válido: você não precisa conversar com seus filhos sobre sexo, você não precisa conversar com seus filhos sobre drogas, você não precisa conversar com seus filhos at all. A televisão dá conta do recado. Comigo foi assim e, bom, cada um que dê sua avaliação pro resultado.

Mas o problema de ter sido criado pela tevê é que criei esse hábito de deixá-la ligada sempre. Isso em geral não gera consequências, exceto mais energia gasta e a chance eventual de estar passando Legendários. Só tem uma coisa que me irrita muito em deixar a televisão ligada: propagandas.

Eu odeio a publicidade moderna, amigos. Mas deixa eu explicar o porquê.

Veja, por exemplo, os bancos. Qual o principal produto de um banco? Dinheiro. O que você quer do seu banco? Que ele faça seu dinheiro render. O que você vai fazer num banco? Pegar ou levar dinheiro. E, mesmo assim, mesmo que tudo que o banco faz e tudo que você espera de seu banco gire em torno de grana, o que mostram as propagandas de banco?

Gente feliz.

Gente feliz andando na praia, gente feliz brincando com seus filhos, gente feliz rindo, bancários (não gente) felizes (o que é humanamente impossível, todo mundo sabe), bancários felizes cantando uma canção, gente feliz torcendo pela seleção brasileira, gente feliz acessando o internet banking. Gente feliz.

Só eu acho isso estranho demais?

Tipo, tudo bem colocar gente feliz no teu comercial. O pessoal gosta de ver gente feliz. Gente feliz é legal. Tudo bem colocar pessoas sorrindo e se amando em uma propaganda de balas sete belo. MAS E AS BALAS SETE BELO? Como você faz publicidade do teu produto sem mostrar o teu produto?

Por que diabos eu nunca vi uma propaganda de banco com dinheiro andando na praia, dinheiro brincando com seus filhos, dinheiro cantando uma canção, dinheiro torcendo pela seleção brasileira? Por que diabos existem vários slogans babacas do tipo “Todo Seu”, “Feito pra Você”, “Presente”, “O Banco da Sua Vida” e nenhum slogan do tipo “Dinheiro? Nós temos, vem buscar!“.

Esses caras parecem que tão vendendo felicidade ao invés de juros baixos, mano.

É que nem propaganda de desodorante masculino. Aparentemente, marcas de desodorante não querem te vender uma coisa que não te faça feder, mas querem vender mulheres! Toda propaganda é a mesma: um cara de peitoral depilado passa o desodorante X e imediatamente um milhão de gostosas aparecem e abrem as pernas pro cara.

Uma dica: ISSO. NÃO. ACONTECE. NA. VIDA. REAL. A única mulher que liga pro seu desodorante é a sua mãe e isso porque É ELA QUE COMPRA.

Não entendo muito de mulheres, sabe, mas acredito que elas desejam algo mais em um homem do que a habilidade de não ser malcheiroso. E sempre me pergunto se homossexuais compram desodorante masculino, afinal parece que as empresas não os consideram como seu público alvo.

Agora me diz: é tão difícil uma propaganda em que um cara passa um desodorante e alguém vem e diz “Nossa, você não fede”? Não seria mais honesto? Não seria mais digno?

Aí que tá a coisa que às vezes eu gostaria mais na publicidade: honestidade. Eu não gosto que mintam pra mim. Eu não gosto que me ludibriem. Eu não quero comprar uma bebida que tem o nome de Alpino mas não tem Alpino em sua composição. Eu não gosto que me digam que o iPhone novo é o primeiro celular a fazer videoconferência de modo real quando isso já taí faz tempo. Eu não gosto que me façam pensar que o produto que eu vou comprar faça uma coisa que ele NÃO FAZ! Eu odeio letrinhas miúdas! Eu odeio “fotos meramente ilustrativas”!

Eu odeio essa babaquice de tentar vender felicidade. Essa ideia imbecil de que, se você ter seguro naquela empresa, conta naquele banco ou celular daquela marca, isso vai te fazer mais realizado, mais estiloso, mais feliz. Às vezes, eu queria comprar uma coisa e não levar junto pra casa todo um estilo de vida.

E é por isso que eu ando desligando a televisão.

14 comentários. Viva!

  • Classifico seu artigo como um desabafo (e com certa razão) de consumidores impregnados de tanta publicidade e sufocados pela hipocrisia da atual liberdade de escolha.

    Porém, somos seres humanos, e felizmente ou infelizmente agimos conforme valores que nos é imposto sem sequer notarmos. E por esta razão que não iríamos utilizar os serviços de um banco que demonstra apenas preocupação com negócios. Precisamos de alguém que nos ampare, que nos considere parte da família.

    Quem é que gosta daquele chato que só pensa em ganhar o meu dinheiro?

  • Hugo Brisolla escreveu:
    3 de julho de 2010 às 10:50

    O problema, Guilherme, é que geralmente as empresas são aquele cara que só quer ganhar nosso vil metal, mas ficam se fingindo de parte da família.

    Vide planos de operadoras de celular (que sempre apresentam truques ardilosos e sorrateiros) ou planos de internet a partir de 29,90* (nos primeiros três meses diz o asterisco).

    Se uma empresa quer ser minha amigona, ok, só que amigões não te fodem depois com letrinhas miúdas do contrato.

  • Guilherme, se quiser que alguém te considere parte da família, vá procurar a sua mãe.
    Cara, as empresas não tão aí pra serem legais.

  • Max, creio que você não interpretou de maneira correta o que eu quis dizer. Estou me referindo à imagem que essas empresas procuram passar através da propaganda.

    Assimile isto a uma entrevista de emprego, ou vai me dizer que você se comportaria e trataria seus futuros empregadores, da mesma forma com que você interage com seus melhores amigos? Seu futuro chefe com certeza saberá disso, e também saberá que você possui defeitos os quais com certeza não serão pronunciados por você no momento da entrevista.

    O que quero dizer, é que todo esse fingimento, e a tentativa de estabelecer a boa imagem faz parte, e o pior de tudo, é que gostamos disso.

  • Eu acho que em geral as pessoas não querem comprar as coisas que elas realmente compram, mas talvez uma idéia por trás daquele produto.

    Usando o caso do desodorante: Eu acho que os homens, sejam eles heteros, gays ou pansexuais, não desejam comprar um desodorante que simplesmente o faça não feder. Eles querem um desodorante que os deixe com um cheiro agradável e o que convenceria mais um homem que odor dele é agradável do capacidade de despertar atração do sexual?

    Eu acho que o mesmo vale para o dinheiro, ninguém realmente deseja aquelas cédulas de papel moeda, as pessoas desejam aquilo que se pode fazer com o dinheiro, daí esse idéia de não se mostrar o dinheiro vivo nas propagandas.

    Eu sei, os seres humanos são seres complicados. Poucas pessoas realmente se comportam como você aparenta ser no seu texto: uma pessoa bem direta. E eu poderia citar inúmeros exemplos dessas pequenas hipocrisias no comportamento geral, mas vou ficar por aqui para não me tornar enfadonho.

  • Hugo Brisolla escreveu:
    4 de julho de 2010 às 19:27

    Leonardo, você vai presenciar agora um evento raro no espaço-tempo: admito que você tá certo, rapaz.
    As pessoas querem que o desodorante delas as faça pegá muié, querem que a grana traga felicidade, querem que o iPhone as deixe cool. Mas não quer dizer que isso tudo acontece, né.
    Taí meu problema com publicidade: os caras se aproveitam das ilusões babacas que a gente já tem.

    E sinta-se bem vindo a dar quantos exemplos quiser.
    Enfadonhas são pessoas que não gostam de uma boa conversa, isso sim.

  • Luciana escreveu:
    4 de julho de 2010 às 23:00

    Vc tem razão que eles criam ilusões, mas o que mexe com o emocional sempre acaba levando vantagem. Até porque, quantas marcas de desodorantes existem hoje no mercado? Ninguém iria querer ver 2983 comerciais com a mesma fala: “use x e vc não irá feder”, porque isso é o mínimo que todo mundo espera. Não que ele faça muita coisa além disso (e não faz mesmo), mas eles exploram a vantagem de alguma outra forma. Quando eles mostram que pegam mulher por causa do produto, ninguém acredita nisso (espero), mas fica uma imagem “engraçadinha”, que é aceito pelo consumidor. Seilá…

  • Guilherme, pelo que eu entendi, você disse que as empresas, para agradar, fazem-se de amiguinhas porque é disso que os clientes gostam.

    Mas por que diabos eu iria tratar meus empregadores como meus melhores amigos?
    Tentaria passar uma imagem competente (o que seria dificílimo no meu caso), porque é isso que eles querem.

    Qualquer um fingiria, mas ajustando o comportamento pra cada situação, cara.
    Acho que você quer me enrolar.

  • Max, você mesmo acabou confessando o que acontece em situações cotidianas e também nos comerciais. “Qualquer um fingiria, mas ajustando o comportamento pra cada situação, cara.”

    Hoje, o mercado está muito além que simples slogans “eu tenho dinheiro, venha pegar!”. Vide a empresa de Steve Jobs, a qual comercializa um simples mp4 chamado iPod que possui muito menos funções que atuais aparelhos de marcas como a sony. Porém, ter um iPod gera status, você compra o conceito que o produto vende e não o brinquedo em si. Se você fosse realmente avaliar o custo x benefício do mp4 da Apple, não valeria a pena. Você realmente acredita que agimos sempre com base na razão?

    Mas tudo isso, como por exemplo, o design das embalagens dos desodorantes Rexona, são baseados em inúmeros estudos de semiótica em torno da percepção de cada público consumidor. E acredite, incoscientemente isso faz muita diferença na hora da compra.

    E não, não estou tentando te enrolar.

  • [...] This post was mentioned on Twitter by Thássius Veloso. Thássius Veloso said: Bancos, Desodorantes e Honestidade… Um desabafo – http://bit.ly/aLVLUT [...]

  • Taffarel escreveu:
    11 de julho de 2010 às 21:37

    Concordo contigo

    e o ápice foi um banco utilizando “Imagine”… sem falas, apenas o texto “vc sempre sonhou com uma agencia moderna, bonita, aconchegante, etc”

    eu já sonhei com coisas mais relevantes que uma agência de banco espaçosa…

  • Guilherme, eu não acredito que agimos sempre com base na razão. Eu só acredito que as empresas não estão aí para serem legais.

  • Ótimo post, mas eu já vi comercial de banco com dinheiro que anda.. http://www.youtube.com/watch?v=SO-ewaBsNBc&feature=related

  • Hugo Brisolla escreveu:
    28 de julho de 2010 às 15:49

    Boechat, taí um exemplo a ser seguido.

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