segunda-feira, 28 de junho de 2010

A Tal Da Heterofobia

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Outro dia eu conversava com um amigo da minha sala sobre a geração Restart, Fiuk, happy rock e afins. Tenho uma opinião bastante forte sobre esses caras e ela se resume a achar calças coloridas uma babaquice foda. Amigo, uma vestimenta que, se usada sob luz solar, PODE CEGAR MOMENTANEAMENTE AS PESSOAS não é legal.

Usar roupas que praticamente deixam teus glúteos fluorescentes? Pode ser estiloso, pode ser moderninho, mas quando o Sol bate nas tuas calças coloridas, mano, MOTORISTAS PERDEM O CONTROLE DOS SEUS CARROS. Então, não. Prefiro preto.

Mas, tirando isso e a aparente necessidade de sempre fazer sinal de coração com as mãos, não tenho mais nenhum ponto de vista formado sobre a geração Restart. O amigo com quem eu conversava, porém, tinha mais opiniões e estas giravam em torno de “como isso tá fazendo gays virarem modinha” e, agora leiam com atenção, “como agora os moleques, se abordados por um gay, vão pensar no assunto ao invés de falar sai daqui senão te mato!”.

Minha reação ao ouvir tais singelas palavras não podia ser outra:

OIQ?!

É, é, amigos, segundo meu nobre colega de classe, ser gay é modinha e atitude correta ao receber uma cantada de um homossexual é afirmar com alguma veemência “SAI DAKI SENAUM T MATO OK“.

Veja bem, essa não é uma pessoa burra. É um cara que está no terceiro ano de medicina, tem uma inteligência razoável e consegue manter uma conversa civilizada sem babar na própria roupa. Eu o considero capaz de concatenar pensamentos racionais de forma saudável e, segundo me consta, ele passou num vestibular de concorrência bastante elevada sem recorrer a depósitos secretos na conta do reitor. Em resumo, o cara não é imbecil.

E ainda assim ele acha que ser gay agora é modinha. O que mais me impressiona nisso, tudo, porém, é que não é a primeira vez que eu ouvi isso. Aliás, em blogs, tuíters e ruas afora, meus pobres ouvidos até captaram pessoas invocando o que seria a instituição da “heterofobia“.

Pra começo de conversa, eu odeio o conceito de “modinha”. Cara, quando alguém faz uma coisa ou diz que gosta de outra, eu suponho que ele esteja falando a verdade, que ele esteja fazendo isso porque realmente quer, porque realmente gosta, porque acha legal. Não me importa se o que ele diz que gosta é moda, o que importa é se é bom ou não.

Acho uma grande besteira supor que uma pessoa esteja fazendo algo só porque é moda, ou pra parecer inteligente, cult ou coisa parecida. Mesmo porque, se alguém me diz que gosta de Twin Peaks, isso não a torna legal. Se uma pessoa me diz que ela ouve NxZero, isso não a torna babaca (apesar de a probabilidade ser grande). Dizer que alguém faz algo por ser moda é dar valor a algo que não faz diferença nenhuma, amigos.

Mas não vejo como alguém pode virar gay pra se incluir na modinha. Porque, cara, eu não sei onde as pessoas enxergam que os homos estão na moda. Eu nunca conheci um homossexual assumido na minha vida. Eu tenho vinte anos, já vive em três estados (problemas com a polícia), devo conhecer alguns milhares de pessoas e nunca conversei com uma que fosse publicamente homossexual. Nem. Uma. Única.

E você vem me dizer que gay é moda? Não força, né.

Sem falar no conceito imbecil e despropositado de heterofobia. Outro dia li um texto de um rapaz que afirmava que as pessoas tem direito de não gostar das coisas, que tudo bem não apreciar a presença de gays, que daqui a pouco não gostar de gays vira homofobia. O cara só esquece que, mesmo que você diga a um hetero que você não gosta dele por ser hetero, ele continua tendo o direito de casar, de adotar crianças, de ter apoio da sua família. Ele não ganha apelidos, ele não perde amigos.

Por isso, só a palavra “heterofobia” é muito mais babaca que mil calças coloridas.

E antes que alguém venha dizer que só estou defendendo os homossexuais porque sou um, digo logo: o mais próximo que já cheguei do universo gay foi ver um clipe da Lady Gaga – que vi logo que não era pra mim, afinal tenho a sanidade intacta – e ter assistido uns poucos episódios de Friends – que também não era pra mim, porque eram sempre a mesma coisa.

Não que eu tenha que me justificar pra gente que realmente acha que gays não merecem o mesmo que heteros.

3 comentários. Viva!

  • [...] This post was mentioned on Twitter by Felipe Cepriano, Daniel Morais and Fernando de Oliveira, F.S.. F.S. said: Mais um post divertido e inteligente do @hugobrisolla, A tal da heterofobia: http://migre.me/SZ1Y [...]

  • Taffarel escreveu:
    11 de julho de 2010 às 22:47

    Tenho a impressão de que a visibilidade que esse, digamos, movimento Restart/NxZero/afins busca e impõe está tendo como conseqüência que as opiniões contrárias fiquem mais explícitas. Vc poderia dizer que é um caso de culpar a vítima (os Restart) pelo crime (a heterofobia). Mas no limite vc poderia até chamar de um movimento de resistência da “old school”. Como um lado está ficando mais explícito, o outro tb vai no mesmo sentido.

    Vejo tb q algo parecido está ocorrendo com a questão racial. Quanto mais negros adotam o discurso de que brancos são os responsáveis pelos seus problemas, acusando o que “o seu povo fez com o meu povo”, eu vejo mais brancos adotando uma posição abertamente racista. Ao mesmo tempo em que se cria a “identidade negra”, se cria a “identidade branca” e se perde a “identidade brasileira”.

  • Hugo Brisolla escreveu:
    12 de julho de 2010 às 18:59

    Cara, isso é MUITO CERTO, Taffarel.
    Lembra do Big Brother 2010? Aquele Dourado congregava em volta de si uma torcida que, mais que gostar dele, via nele uma “reação hetero”.
    E isso é assustador, amigo, porque o conceito de resistência hetero é totalmente equivocado. Não há como existir um movimento de defesa do heterossexualismo numa sociedade que já favorece esse comportamento. O mesmo vale pra “identidade branca”.

    Parece que os caras só consegue ver os avanços que já foram conseguidos, mas não conseguem ver o longo caminho que ainda falta pras coisas ficarem certas.

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