sexta-feira, 16 de julho de 2010

2010 foi um ano ruim

Ir direto
para os comentários...

Acho estranho como muita gente me define como cético. Não ligo quando me chamam de implicante, provocador ou o inquestionável auge da imbecilidade humana personificada em uma forma pouco aprazível aos olhos, mas dizer que sou descrente me deixa quase irritado. Tá, não acredito em nada que não tenha sido comprovado em um estudo duplo-cego randomizado e placebo-controlado, o que claramente não é ceticismo, isso é sensatez, amigos.

Não acredito, por exemplo, em sorte, mandinga, macumba, Jesus Cristo, simpatias, benzedeiras, atendentes de telemarketing, medicina popular, fatalidade, encosto, horóscopo, sentido da vida, destino, trevo de quatro folhas, ir na missa, azar ou qualquer coisa do tipo.

Sou desprendido quanto a superstições: não vejo problema de beber antes de brindar, passar debaixo de escada ou comer carne na sexta-feira santa. Eu nem troco os dados no WAR quando tô perdendo! Tá, ok, às vezes eu troco os dados no WAR quando tô perdendo, mas WAR é situação especial e mesmo assim só por garantia, né.

O caso é que não acho que exista essa coisa de ter sorte ou azar. Acredito em acaso, coincidência e probabilidade.

Mas 2010 tá quase mudando esse ponto de vista, amigo.

Coisas boas aconteceram nesse ano. Acho que é o melhor ano do meu curso até agora, minhas notas subiram, aprendi muita coisa e tenho mais amigos na sala. Participei do Congresso de Cardio, comecei a assistir séries que estão hoje entre minhas preferidas, o blogue recebeu bastantes elogios e links de pessoas cuja opinião é importante pra mim, meu tuíter tem mais seguidores do que eu nunca imaginei, minha mãe deixou eu trazer o carro pra Londrina, perdi a virgindade. Minha vida melhorou em muitos aspectos.

Só que, amigo, as porcarias que andam acontecendo me deixam muito irritado.

Veja meu carro, por exemplo. Minha mãe, depois de dois anos de faculdade, me deixa trazer pra Londrina o carro dela. Não um carro novo, não um carro zero, o veículo que ela usava lá na terrinha, o que já me livrava da terrível sina do transporte coletivo e dos celulares sem fone de ouvido tocando Justin Bieber.  E daí, menos de três meses que eu tô com a carroça, me arrombam a fechadura pra pegar uma blusa cheirando a napalm.

Tudo bem, fazer o quê?, ainda bem que não levaram o carro todo, etc, etc, etc. Eu já tava até conformado com a situação e aquele amassado na porta parecia mais simpático e bonito, e aí vem o Universo me foder outra vez.

Em frente a um hospital, três horas da tarde de uma quinta-feira, duas semanas atrás, roubam meu estepe.

Direi agora algo que tá engasgado na garganta: amigo, se você rouba um estepe, você é provavelmente a pessoa mais babaca do mundo. É que nem roubar comida de uma daquelas crianças africanas famintas ou bolsas de sangue de uma pessoa com leucemia: você tá levando algo que aquele cara vai invariavelmente precisar alguma hora e que ele provavelmente só perceberá o roubo justamente nesse instante! ISSO É O ÁPICE DA BABAQUICE HUMANA, CARA.

Sem falar que levar o macaco e o triângulo junto te coloca no nível Hitler da escala de filhadaputice, né.

Mas tudo bem, fazer o quê?, ainda bem que não levaram o carro todo, etc, etc, etc. Engraçado como você se acostuma e criar desculpas pro cara que te roubou: “pelo menos ele não levou o som”, “sorte que não foi o carro todo”, “você ainda tá com saúde”, “pelo menos ele deixou as moedas do porta-moedas e as cinzas do cinzeiro”.

E você engole tuas desculpas, fecha o porta-malas e anda normalmente no seu carro até que O PNEU FURE ÀS TRÊS DA MANHÃ EM UM LUGAR TÃO LONGE DA SUA CASA QUE VOCÊ PRECISA DE UMA BÚSSOLA E UM ASTROLÁBIO PRA ENCONTRAR O CAMINHO DE VOLTA.

Existe, porém, um lado bom em tudo isso. Não sei se vocês sabem, mas eu tenho uma pequena deficiência mental: eu faço medicina. Nós, estudantes de medicina, estamos acostumados com muitas coisas: descasos de docentes, provas malucas, horários inconstantes, ver a merda dos outros, pegar AIDS, ler 500 páginas em dois dias e outros. Só tem uma coisa com a qual nós, estudantes de medicina, não estamos muito familiarizados: vida real.

Não sabemos nos virar, não temos costume de fazer as coisas por si próprios, não temos habilidades de sobrevivência, nunca tivemos um trabalho de verdade, somos completamente dependentes de nossos pais, não sabemos como andar sem que nosso ego esbarre nas pessoas. Somos bons em medicina, nada mais.

Aliás, pensando no assunto agora, eu NEM TENHO IDEIA DE COMO SOBREVIVI ATÉ HOJE.

O que nos leva de volta ao meu pneu explodindo: eu aprendi a trocar um pneu. Atividade braçal não é meu forte, mas, considerando as circunstâncias, me dei bem. Aprendi como lidar com estresse, aprendi a não deixar blusas no carro, aprendi a não andar sem estepe, aprendi a colocar proteção que eletrocute no meu carro. Todas as porcarias que aconteceram comigo e com meu carro nos últimos tempos tiveram essa vantagem: eu vi, pela primeira vez provavelmente, como é a vida real.

Talvez 2010 seja um ano bom pro meu aprendizado, pelo menos.

5 comentários. Viva!

Deixar comentário

Quer receber emails com os novos comentários?