22 de janeiro de 2012

Just Shut The Fuck Up For a Minute And Enjoy The Silence

Sabe aquele teu amigo que fez intercâmbio pro exterior no colegial? Aquele que passou três semanas na Jamaica, Coreia do Norte ou no Acre e voltou achando que sabe falar o dialeto local? Aquele que, depois que voltou do intercâmbio, só sabe falar de uma coisa, só tem um único assunto, emenda qualquer conversa com “ah, quando eu fiquei em Bora-Bora, era diferente, sabe”? Então. Tô me sentindo esse cara, ultimamente.

Não que eu tenha saído do país nos últimos… bom, em toda minha vida. Não tenho grana pra tal e meus problemas legais me impedem até de sair da cidade sem permissão do juiz. Simplesmente é que nos últimos tempos minhas conversas, assim como as de ex-intercambistas que só sabem falar de intercâmbio, giram em torno de um único assunto.

Sou um chato que só sabe falar sobre o próprio trabalho.

O que é bem estranho considerando que nem um trabalho de verdade eu tenho. A não ser que você considere meu internato como trabalho escravo, claro.

Olha, não sei o quanto você sabe sobre o curso de medicina. Eu explico pra minha família em todas as festas e eles continuam ignorando tudo e só fazendo piadinhas sobre toque retal e o tamanho dos meus dedos, então não culpo você se não souber qual a diferença entre internato, residência, especialização e um pato.

Do modo mais simples possível: nos dois últimos anos dos seis que tem a medicina, entramos no internato, em que começamos a ter contato direto com a prática clínica, realizando consultas, exame físico, discussões de caso e tudo mais. Nessa época ainda somos acadêmicos e, consequentemente, não ganhamos um mísero conto. Residência só vem depois de formado (trazendo, finalmente, um salário) e basicamente é a especialização. E um pato é uma ave que pertence a família Anatidae, um esporte argentino ou um jogador de futebol, dependendo do verbete da Wikipédia que você pesquisar.

Há mais ou menos dois meses, entrei no internato. Isso significa que dou plantões, atendo pacientes, realizo exames e não sei mais falar de outra coisa.

Veja bem, não é que o internato tome totalmente o meu tempo. Tirando os períodos que estou no HU, os que estou estudando, os que estou limpando a casa e os que estou dormindo, sobram algumas horas diárias, que ando sabiamente utilizando para assistir umas séries, reclamar da vida no tuíter e deitar deprimido no chão da sala.

Mãe, cheguei do plantão!

Mas, quando chego a hora de conversar sobre alguma coisa, só consigo falar naquilo que anda tomando a maior parte do meu tempo: a medicina.

Eu me considero um cara interessante de se conversar, sabe. Já tive contato com uma boa cota de filmes, séries e livros, sei versar livremente sobre uma considerável quantidade de assuntos que conheço (e também sobre os que desconheço) e consigo falar sem cuspir no meu interlocutor na maior parte do tempo. Sou um bom conversador.

Ou pelo menos eu era.

Talvez seja a companhia (andar só com o povo de medicina não ajuda), talvez seja um bloqueio, talvez eu precise fazer outras coisas, talvez eu precise conversar com outras pessoas, talvez seja essa minha vida daqui pra frente.

Ou talvez, já que assunto não há, melhor sentar em silêncio no meu sofá, tomar a minha coca e aproveitar a tarde. Afinal, numa das belas pastagens que povoam a rede mundial de computadores, já disse o sábio a seus discípulos:

Shhhhhh.

18 de setembro de 2011

Árvore da Vida – The Tree of Life

Você sabe que tem spoilers, né? Não seja burro.

Não é fácil definir sobre o que é A Arvore da Vida, o filme que assisti nesse fim de semana. Um filme sobre a relação entre pais e filhos e dinossauros? Não, é isso mas não é isso. Um filme sobre a criação e o fim do Universo, e tudo que acontece no meio disso? Quase lá, mas ainda falta algo. Um filme sobre um monte de imagem bonitas colocadas juntas pra ganhar um Oscar? Talvez, seilá. Um filme sobre a Vida, o Universo e Tudo Mais? Por aí.

Não sei nem dizer sobre o que é A Árvore da Vida, quanto mais dizer se gostei.

Vou te dizer que achei legal a primeira metade do filme. A coisa do filho morrendo, a narrativa meio fragmentada, como não contam tudo e o espectador consegue deduzir só pelo que é mostrado, os questionamentos de por que Deus deixa acontecer sofrimento no mundo (KD VC DEUS NAUM KER MAIS TC?), a origem do Universo, a vida surgindo, os dinossauros, o Sean Penn novinho nascendo e tudo mais. Muito bom mesmo.


O FOGO É FOGO ESQUENTA O NOSSO AMOR

Mas aí a coisa começa a desandar, de repente o Brad Pitt começa a fazer um monte de babaquices, o Sean Penn novinho começa a ficar meio louco e cheirador de calcinhas e quando você vê a Mãe tá voando ao lado de uma árvore e você só consegue se perguntar “por que Deus deixa acontecer essa parte do filme?“.

Veja bem, qualquer filme com dinossauros já ganha vários pontos no meu conceito, mas acho que todos concordamos que é um grande desperdício quando um filme tem dinossauros e nenhum deles é um tiranossauro devorando pessoas, né. Uma protagonista/quase-protagonista tão linda quanto a Jessica Chastain também ajuda bastante, apesar de ser uma enorme decepção que ela não mostre os peitinhos nenhuma vez.

Na falta de peitinhos bonitos, porém, temos várias sequências bonitas. Aliás, o filme todo é uma colagem de gifs bonitos. Aliás, seguindo a onda do filme do Facebook, bem que podiam mudar o nome de Árvore da Vida pra Tumblr, o Filme, porque, amigo, o filme só não é mais tumblr porque não tem cupcakes e softporn.

ONDA ONDA OLHA A ONDA

Minha grande decepção quanto ao filme é a falta de um roteiro mais sólido, algo mais substancial. Tem menos diálogos que conversa de mudos e, mesmo quando alguém tá falando, metade das vezes é sussurrando pra uma imagem psicodélica que ou é Deus ou é UMA PIRA MUITO LOKA. Parece que saí da sala de cinema e tão pouca coisa aconteceu: quanto tu tem que encher duas horas de filme com A CRIAÇÃO E O FIM DO UNIVERSO, é porque não acontece nada mesmo na tua história, né.

Tá, tem todo o papo de as diferentes interpretações da religião e a presença de deus na natureza, mas vamos dizer, amigo, esse papo é muito hippie pra encher duas horas de filme, né.

A produção, porém, é ótima. A filmagem é excelente, tem imagens fantásticas, tudo é muito bem feito e as atuações são boas. A atuação do Sean Penn, aliás, está maravilhosa: é sensacional ver como ele consegue demonstrar tanta angústia e sofrimento só andando de um lado pro outro sem nenhum motivo aparente. Seria a aflição de uma crise de meia-idade? O tormento de reflexão sobre seus próprios traumas? Ou só a percepção de que ele não tem muito o que fazer ali no filme mesmo?


Sofro tanto que ando de terno no deserto.

Não sei, não sei, talvez eu não tenha entendido muito coisa. Uma coisa, porém, compreendi totalmente: Árvore da Vida é um filme até legal. Tirando o excesso de cenas só bonitas e sem conteúdo e a meia hora de filme que eu teria aproveitado melhor lavando minhas meias, é um filme muito bom.

E não vamos esquecer a estupenda vantagem do filme terminar com o fim do universo: não vai ter continuação, né.

21 de agosto de 2011

É Foda Ser Minoria

Não acompanho mais novelas. Já teve um tempo que assisti uma ou outra novela (Kubanacan, a melhor novela já escrita), mas hoje em dia não me dou a trabalho de ligar a tevê pra qualquer outra coisa que não para quebrar o silêncio enquanto fico na internet. Meu maior problema com as novelas é um só: quando penso em novelas, penso na minha vó.

Peraí, eu gosto da minha vó. Minha vó me dá dinheiro, minha vó faz esfihas e merece respeito qualquer pessoa que colaborou com a minha chegada nesse mundo (um evento que todos concordam que era necessário). Só que quando penso em novelas de tevê, a imagem que me vem à mente é a minha vó fazendo crochê.

Minha vó assiste várias novelas (“uma deturpação essa novela”, diz sobre todas), sempre com o olho no crochê e dando uma olhada eventual pra tevê. Pra mim, novela sempre foi isso: uma coisa que você pode assistir sem tirar os olhos do crochê. Não que eu faça crochê, mas você entendeu. Não precisa muito esforço pra acompanhar, não precisa muito esforço pra entender. E, tá, nada contra quem assista e é até legal acompanhar uma ou outra, mas não é mais pra mim.

Não me divirto mais vendo novelas.

E isso é só uma das formas de entretenimento que não me agradam. Novelas, futebol, filmes do Eddie Murphy são só alguns exemplos de coisas com as quais as pessoas costumam se divertir e que me causam uma reação que varia levemente entre a indiferença e a vontade de enfiar a cabeça numa poça de ácido sulfúrico com gosto de chorume.

Na verdade, atualmente não são muitas as coisas com que me divirto. Minha faculdade não entra tecnicamente no campo “diversão”, apesar de eu gostar da bagaça. Assisto várias séries, gosto de escutar umas músicas, jogo videogame e de vez em quando consumo algumas quantidades consideráveis de álcool.

Ah, e gosto de cinema.

Veja bem, eu disse que gosto de cinema. Não quer dizer que eu entenda de cinema ou saiba o que alguém quer dizer com “muito original a fotografia do novo filme dos irmãos Coen”.  Gosto de ir no cinema nos fins de semana, só isso.

Aprecio a experiência inteira: conferir o horário na internet, olhar os pôsteres dos outros filmes,  comprar o ingresso, comprar um quilo de pipoca (pra comer tudo nos trailers), escolher a poltrona mais acusticamente bem localizada, ofender aquela criança que não para no poltrona, ofender aqueles adolescentes que ficam jogando pipoca nos outros, lembrar porque você odeia a humanidade, prometer a si mesmo que você nunca mais volta num cinema, gostar do filme e sair falando no filme que vai estrear na próxima semana.

Eu gosto de cinema e, quando digo isso, é cinema mesmo, o lugar, a empresa, a coisa física.

Mas ultimamente tá foda.

Olha só, gente babaca é parte da experiência. Pessoas falando, levantando no meio do filme, brigando e rolando pelo chão? Ok, dá pra aguentar. Ter gente babaca no cinema é inevitável: tem gente babaca na vida. O difícil é não querer ir no cinema.

Nas últimas duas semanas, metade dos filmes que eu queria ver não estrearam aqui e a metade que estreou só tinha exibições dubladas. E AINDA TEM AQUELA PORRA DE TRESDÊ. E eu entendo. É compreensível que o tresdê seja interessante pro cinema, afinal é mais caro. Eu sei que a maioria do povo ainda prefere filmes dublados (e se eu não soubesse inglês, talvez até eu preferisse).

O dinheiro é que manda nos cinemas e eu sei que a maioria dos pagantes vai continuar indo no cinema seja o filme dublado e em tresdê, mesmo que eu ache essas duas coisas uma combinação tão terrível quanto, seilá, um crossover da Turma do Didi com Zorra Total.

Entender tudo isso é fácil. Difícil é não fazer uma das poucas coisas que gosto porque a maioria da população difere do meu gosto.

É foda ser minoria, viu.

16 de agosto de 2011

Reality Show

Me considero um cara corajoso. Praticamente não tenho medo de nada, exceto algumas fobias normais como de velociraptors, pterodátilos, escuro, lugares fechados, lugares abertos, telefones, carros, estupradores, gatos, policiais, bandidos, a natureza em geral, altura, meteoros, combustão espontânea, terremotos, tsunamis e a chance de acidentalmente assistir um filme do Eddie Murphy. Tirando essas pequenas coisas, praticamente não tenho medo de nada.

Um pequeno medo que cultivo no meu íntimo todos os dias vem crescendo cada vez mais ultimamente: o pavor de que a realidade não existe.

Tipo, eu existo. Eu sei que existo. Não posso inexistir. Seria uma perda muito grande pro universo eu não existir. Sou muito importante pra não existir. Sou muito egocêntrico pra não existir. Tem vinte e dois anos que levo minha vida só pensando em mim e será uma frustração muito grande se eu acabar descobrindo que perdi meu tempo com algo imaginário.

Eu existo, não tenho dúvida. Só não sei se você existe.

Muitas obras culturais já nos mostraram que a nossa percepção da realidade é uma droga. Uma Mente Brilhante, Clube da Luta, Matrix, Inception: tudo filme que conta a história de um cara com problemas mentais que alucina tudo o que acontece. Uma Mente Brilhante: o cara imagina um monte de gente e uma conspiração. Clube da Luta: o cara imagina o Brad Pitt (meio gay se você pensar). Matrix: o cara imagina que existem efeitos especiais. Inception: eu imagino que entendi tudo que aconteceu nas três horas de filme.

Resumindo: posso estar alucinando.

Eu sei que existo, mas não sei mais nada. Este blog, este computador, essa cada, essa cidade, tudo isso à minha volta pode ser fruto da minha imaginação. Você, seus comentários, a gostosa do 903. Tudo pode ser mentira. E se a realidade e mais nada não existe, eu paguei caro demais naquela coxinha de hoje de manhã.

E se a realidade que eu percebo for uma manipulação? Pode ser tudo um plano malévolo de um grande vilão, que construiu esse mundo imaginário e me botou aqui dentro. Pode ser que vocês, que provavelmente vão comentar dizendo “deixa de besteiras Hugo”, são arautos desse vilão e estejam tentando me impedir de chegar na verdade. Ou posso ser só um personagem de um jogo de outras pessoas de verdade.

Pior ainda: algumas coisas podem existir. Talvez eu alucine uma parte do mundo e outra parte realmente seja verdadeira. Talvez vocês são de verdade, mas eu imagine que fiz coisas que não fiz e esqueça totalmente coisas que fiz.

Ou talvez a realidade exista, minha percepção seja perfeita e eu ainda tenha louça pra lavar.

Pffff, mas quais as chances disso, né?